Benedita Gonçalves aborda, em entrevista ao Jornal Económico, os principais impactos da transposição da Diretiva da Transparência Salarial e os desafios que a nova legislação colocará às empresas.
Embora o processo legislativo ainda esteja em curso, Benedita Gonçalves destaca, entre as alterações com maior impacto, a divulgação interna dos critérios utilizados para determinar a remuneração e a progressão remuneratória, o reforço do direito dos trabalhadores à informação e a realização de avaliações conjuntas das remunerações.
“A nova legislação vai levar muitas organizações a reavaliarem, com profundidade, a forma como definem, gerem e comunicam a sua política de remuneração. No entanto, o maior desafio será garantir que as práticas de gestão que suportam as decisões salariais são consistentes, transparentes e sustentáveis”, afirma.
A advogada sublinha também o papel determinante das lideranças neste processo: “Os líderes terão de estar preparados para explicar como são tomadas decisões salariais, quais os critérios de progressão e porque podem existir diferenças de posicionamento dentro das bandas salariais.”
Apesar de a remuneração continuar a assumir um peso relevante na atração e retenção de talento, a transparência pode contribuir para a criação de ambientes de trabalho mais justos e para o reforço da confiança dos profissionais. “É cada vez mais valorizado um local de trabalho onde as decisões salariais são justas, consistentes e fundamentadas. A transparência salarial pode desempenhar um papel transformador nesse contexto”, explica.
A utilização de soluções tecnológicas poderá facilitar o cumprimento das novas exigências, sobretudo perante a carga administrativa associada. No entanto, Benedita Gonçalves alerta para os riscos relacionados com a proteção de dados, a qualidade da informação e a fiabilidade dos sistemas de inteligência artificial, que dependem da intervenção humana na sua conceção, parametrização e supervisão.
Perante a proximidade da transposição da Diretiva, a principal recomendação dirigida às empresas é clara: “A principal recomendação é não esperar.” Entre as medidas prioritárias, destaca o mapeamento e a avaliação das funções, a revisão das políticas salariais, a auditoria das práticas remuneratórias, a adaptação dos processos de recrutamento e a capacitação das equipas de Recursos Humanos e das lideranças.
“A transparência salarial não deve ser encarada apenas como uma obrigação legal, mas como uma oportunidade para melhorar a qualidade da gestão e reforçar a confiança dos profissionais na organização”, conclui Benedita Gonçalves.
O artigo foi publicado na versão impressa do Jornal Económico de dia 18.09.2026